Tech Radar: Como definir e comunicar a estratégia tecnológica da sua empresa

Seu time de tecnologia tem liberdade para escolher ferramentas e linguagens. Isso é ótimo para inovação. Mas o que acontece quando cinco times escolhem cinco bancos de dados diferentes? Quando uns usam Python, outros Go, outros Node.js? Quando cada projeto traz uma nova biblioteca de logging, um novo framework HTTP, um novo jeito de fazer deploy?

A inovação sem governança vira caos. E o caos vira dívida técnica, dificuldade de rotacionar times, onboarding lento e custos operacionais altos.

O Tech Radar é uma ferramenta simples e poderosa para resolver esse dilema. Inspirado no famoso ThoughtWorks Technology Radar, ele ajuda sua empresa a documentar, comunicar e evoluir sua estratégia tecnológica de forma transparente – dando diretrizes claras sem sufocar a inovação.

Neste post, vamos mostrar como criar e manter um Tech Radar na sua empresa, quais categorias usar, como envolver o time e como transformá-lo em uma ferramenta viva de decisão técnica.

O que é um Tech Radar?

Um Tech Radar é uma matriz bidimensional que classifica tecnologias (linguagens, frameworks, ferramentas, plataformas, práticas) de acordo com dois eixos:

  • Quadrante (categoria) – a natureza da tecnologia (ex: linguagens, frameworks, infraestrutura, ferramentas)
  • Anel (status) – o quão recomendada é a tecnologia (ex: adotar, experimentar, avaliar, evitar)

Exemplo visual simplificado

Os quatro anéis (recomendação)

AnelSignificadoAção típica
Adotar (Adopt)Tecnologia recomendada para uso geralUse em produção. Times devem ter expertise.
Experimentar (Trial)Tecnologia promissora, mas com riscos conhecidosUse em projetos de baixo risco, avalie em produção, compartilhe resultados.
Avaliar (Assess)Tecnologia emergente, vale a pena conhecerFaça POCs, estude, não use em produção ainda.
Evitar (Hold)Tecnologia com problemas conhecidos ou obsoletaNão use novos projetos. Planeje migração se já existe.

Os quadrantes (categorias)

A ThoughtWorks usa quatro quadrantes, mas você pode adaptar:

QuadranteO que incluiExemplos
Linguagens e FrameworksLinguagens de programação, frameworks web/backendGo, Python, React, Spring Boot
Plataformas e InfraestruturaCloud, bancos, filas, orquestraçãoKubernetes, AWS Lambda, PostgreSQL, Kafka
FerramentasCI/CD, observabilidade, IDEsGitHub Actions, Prometheus, VS Code
Técnicas e PadrõesPráticas de desenvolvimento, arquiteturaTDD, Event Sourcing, Feature Flags

Por que sua empresa precisa de um Tech Radar

Problema 1: Caos de escolhas

Cada time escolhe sua própria stack. Dez microsserviços usam cinco linguagens diferentes, três bancos, quatro jeitos de fazer deploy.

Tech Radar resolve: define o que é padrão, o que é permitido com justificativa, o que é proibido.

Problema 2: Onboarding lento

Novo desenvolvedor passa semanas aprendendo as ferramentas e padrões “não escritos” da empresa.

Tech Radar resolve: a estratégia tecnológica está documentada e acessível. Novo membro sabe o que aprender primeiro.

Problema 3: Decisões repetidas

Cada time, ao escolher uma biblioteca de logging, passa pelo mesmo debate.

Tech Radar resolve: a decisão já está tomada e documentada. Time só desvia se houver justificativa forte.

Problema 4: Inovação sem governança

Times experimentam tecnologias novas sem compartilhar aprendizados. O conhecimento fica preso.

Tech Radar resolve: o radar é atualizado coletivamente. Experimentações são visíveis e os resultados, compartilhados.

Como criar seu Tech Radar

Passo 1: Defina o time de curadoria (Tech Radar Committee)

O radar precisa de donos. Monte um comitê com:

  • Arquitetos de software
  • Tech leads de diferentes áreas
  • Representantes de produto (opcional)
  • Representante de segurança (opcional)

Papéis:

  • Revisar propostas de mudança no radar
  • Conduzir reuniões de atualização (ex: trimestrais)
  • Comunicar mudanças ao time

Passo 2: Escolha o formato e a ferramenta

FerramentaTipoPrósContras
ThoughtWorks Radar (open source)VisualSimples, gratuito, exporta PNG/SVGApenas visual, sem backend
Build Your Own Radar (BYOR)CódigoConfigurável via JSON/YAMLRequer desenvolvedor
Backstage (Plugin Tech Radar)PlataformaIntegrado ao catálogo de serviçosRequer Backstage
Planilha + diagrama manualManualFácil de começarDifícil manter versões

Recomendação: comece com uma planilha + diagrama manual (Draw.io ou Miro). Se o radar provar valor, migre para uma ferramenta como Backstage.

Passo 3: Popule a versão inicial

Não comece do zero. O primeiro radar deve refletir a realidade atual da empresa.

Perguntas para levantar:

  • O que usamos hoje em produção?
  • O que já decidimos que NÃO vamos usar?
  • O que estamos experimentando agora?
  • O que gostaríamos de avaliar no futuro?

Classificação inicial (exemplo):

TecnologiaQuadranteAnelJustificativa
GoLinguagensAdotarPadrão para microsserviços de alta performance
PythonLinguagensAvaliarUsar apenas para Data Science e scripts
Node.jsLinguagensEvitarMigrar para Go em novos projetos
KubernetesInfraestruturaAdotarPadrão para orquestração
MongoDBBancosEvitarPreferir PostgreSQL, exceto casos específicos
TemporalWorkflowsExperimentarAvaliando para fluxos de orquestração

Passo 4: Comunique e eduque

Um radar que ninguém conhece é inútil.

  • Publique em local acessível (wiki, GitHub, Backstage)
  • Apresente em reunião geral de engenharia
  • Incorpore nas práticas de onboarding
  • Use como referência em pull requests que introduzem novas tecnologias

Como manter o Tech Radar vivo

Ciclo de atualização típico (trimestral)

Mês 1: Coleta

  • Times sugerem mudanças (via issue, formulário)
  • Compartilham aprendizados sobre tecnologias em Trial/Assess

Mês 2: Curadoria

  • Comitê revisa sugestões
  • Discute evidências e justificativas
  • Decide novas classificações

Mês 3: Publicação

  • Radar atualizado
  • Anúncio para a empresa
  • Atualização de documentação

Gatilhos para mudanças não programadas

  • Lançamento de versão major de tecnologia relevante (ex: nova versão de framework)
  • Incidente de segurança ou performance relacionado a tecnologia específica
  • Depreciação anunciada por fornecedor

Exemplo de entrada no Tech Radar (documentação de apoio)

Cada tecnologia no radar deve ter uma entrada documentada.

# Go (Linguagem / Adotar)

**Quadrante:** Linguagens e Frameworks
**Anel:** Adotar
**Última revisão:** 2026-06-01
**Curador:** time-plataforma

### Justificativa
Go é a linguagem padrão para todos os novos microsserviços e APIs de alta performance. Oferece excelente concorrência (goroutines), baixa latência, binários estáticos e curva de aprendizado acessível para times com experiência em Python/Node.

### Quando usar
- Microsserviços de API
- Workers de processamento assíncrono
- Ferramentas CLI e operações de infraestrutura

### Quando NÃO usar
- Data Science / Analytics (prefira Python)
- Protótipos muito rápidos com baixa exigência de performance
- Sistemas que exigem reflexão extensiva (Go tem limitações)

### Experiência na empresa
Adotado em 2024. Hoje 40+ microsserviços em produção. Redução média de 60% no custo de computação comparado ao Node.js anterior.

### Recursos de aprendizado
- Curso interno "Go para times Python"
- Documentação: link
- Exemplos: template-service-go (repo)

### Decisões relacionadas
- Node.js foi movido para EVITAR para novos projetos
- Python mantido em ADOTAR para Data Science

Armadilhas comuns ao implementar um Tech Radar

ArmadilhaConsequênciaCorreção
Radar muito restritivoTimes ignoram, inovação morreDeixe espaço para Trial e Assess
Radar só no papelNinguém consulta, decisões continuam ad hocComunique regularmente, integre ao onboarding
Sem justificativas documentadasParece “ditadura tecnológica”Cada entrada tem porquê e contexto
Atualização muito lenta (anual)Radar fica defasado, perde utilidadeCiclo trimestral ou semestral
Sem representação de múltiplos timesRadar reflete só a visão de um timeInclua tech leads de diferentes áreas

Como o Tech Radar se relaciona com outros artefatos

ArtefatoRelação com Tech Radar
Architecture Decision Records (ADRs)Radar é visão estratégica; ADRs são decisões táticas documentadas
Onboarding GuideRadar informa o que aprender primeiro
Pull Request templatesIncluir checklist: “a nova tecnologia está no radar?”
Tech debt backlogTecnologias em “Evitar” podem gerar itens de migração

Caso real: empresa de fintech adota Tech Radar

Uma fintech de médio porte (80 engenheiros, 50 microsserviços) sofria com proliferação de tecnologias. Identificaram:

  • 5 linguagens diferentes em produção
  • 3 bancos de dados relacionais
  • 2 soluções de mensageria
  • 4 frameworks HTTP diferentes

Implementação Jacobus:

  • Criado comitê com 6 arquitetos e tech leads.
  • Primeiro radar definiu: Adotar (Go, PostgreSQL, Kubernetes, Kafka), Trial (Temporal), Assess (Rust para componentes críticos), Evitar (Node.js para novos serviços).
  • Radar publicado no Backstage + wiki.
  • Ciclo de atualização trimestral.

Resultados após 9 meses:

  • Novos serviços: 100% em Go (antes mix de Python/Node/Go)
  • Onboarding de novos devs: de 4 semanas para 2 semanas
  • Incidentes relacionados a “jeito diferente de fazer”: redução de 45%
  • Times ainda têm liberdade para experimentar (Trial/Assess), mas com governança

Conclusão

Tech Radar não é sobre controle – é sobre clareza. Ele documenta o que sua empresa já aprendeu, o que recomenda e o que evita. Dá aos times liberdade dentro de limites conhecidos e acelera a tomada de decisão.

Na Jacobus Software, usamos Tech Radar internamente e ajudamos clientes a implementar o seu. Se sua empresa sente a dor da proliferação tecnológica sem governança, o radar é a ferramenta certa.

Comece pequeno: uma planilha, um comitê pequeno, uma primeira versão refletindo o que você já usa. O resto vem com o tempo – e com as atualizações.


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